“Lá é bom, mas é uma merda. Aqui é uma merda, mas é bom.”

Como disse meu avô, enquanto me visitava na Philadelphia, “mas esse decadente estado americano é do caralho!”. E eu concordo, em partes.

E uma outra frase que parece que foi dita pelo Tom Jobim em uma entrevista, logo que voltou pro Brasil, depois de ter morado em Nova York e que acho que ajuda a introduzir o que eu quero dizer é: “Lá é bom, mas é uma merda. Aqui é uma merda, mas é bom.”

Lá [nos Estados Unidos] é tudo organizado, fácil, rápido, barato, limpo. A maioria dos processos que aqui são incrivelmente burocráticos, lá costumam ser menos. O nível cultural, apesar de toda aquela história de “americans are not stupid” é certamente mais alto que no Brasil – claro, consideradas camadas sócio-culturais parecidas. As pessoas são mais organizadas, diretas e respeitam mais o espaço umas das outras.

Mas, depois de um tempo (e eu passei só seis meses!) morando lá, eu comecei a sentir – na verdade acho que já sentia: passei é a ter certeza – que tem algo de muito errado com a cultura em geral. Parece que eles tão todos doentes.

Passei bastante tempo pensando em que exemplos usar pra ilustrar o que eu quero dizer, e acho que finalmente encontrei alguns realmente bons:

(1): imagem retirada do postsecret, um blog que se dedica a postar cartões postais (geralmente artesanais) que os leitores mandam contando algum segredo.

tradução do texto: “A mais velha dos meus quatro filhos acaba de entrar na pré-escola. [lista de materiais]. Eu roubei todos os materiais dela da lojinha de conveniências do meu bairro suburbano.”

(2)”Afraid of Cotton Balls, Frogs, and JELL-O?” (inglês*): parte de um programa do Maury. Esse programa é um talk show daqueles que tem algumas imitações na tv aberta brasileira: faz teste de paternidade, polígrafo, etc.

(3) “Teen Werewolves” (inglês*) : vídeo retirado de um noticiário, sobre um novo grupo ou “tribo”, a dos adolescentes lobisomens.

Em (1) uma mãe de quatro filhos, de classe média-alta, admite (explicitamente) ter roubado – entendo eu, por diversão – uma loja de conveniências e admite (implicitamente) ter feito a filha de não mais de seis anos cúmplice de um crime besta.

Em (2) um talk show sensacionalista se aproveita da vontade das pessoas de aparecer indiscriminadamente na televisão – algo que se observa muito facilmente na grande maioria da produção televisiva de lá: as pessoas simplesmente não se importam em passar uma imagem ridícula ou simplesmente negativa –, expondo supostas fobias, com o pretexto de ajudar, fornecendo hipnoterapia como tratamento pra estas.

Em (3) a análise jornalística e um tanto quanto ridícula, principalmente enquanto aplicada a esse tema, da exacerbação da vontade de pertencer a um grupo ao mesmo tempo que receber atenção e chocar, por parte de adolescentes americaninhos.

Os três exemplos me parecem refletir algumas das características que mais me preocupam e incomodam nos estadunidenses. Na imagem, o fato de a mediação do blog ter visto esse postal – não faço ideia de quantos eles recebem por semana, mas devem ser centenas – e pensado que seria interessante postá-lo já me soa estranho. Ele não é visualmente bom, o texto não é nada de lá muito incrível e o segredo que ele conta é, no máximo, preocupante. Por que esse culto ao pseudo-expontâneo que se vê em tantos segmentos da cultura deles? Será que eles são assim tão reprimidos a ponto de precisarem desse tipo de artifício pra autoafirmação? Eu costumava ler o postsecret frequentemente, mas, desde mais ou menos o meio da minha viagem, não consegui mais. Porque todos os postais são sempre tão “self-centered“. A maioria é marcado por uma visão muito característica, com todas essas coisas das quais eu tô falando no post. Parece uma visão viciada, que não consegue ver nada que não seja desse jeito.

Em ambos os vídeos, dá pra observar o jeito estranho que eles lidam com exposição. Eles têm aquela cultura do “quinze minutos de fama” muito forte, mas realmente parece que não faz muita diferença se a imagem que eles tão passando é boa ou não. Eu sei que agora que também tem reality shows e esse tipo de programa aqui no Brasil, dá pra ver que a gente também é assim. Mas eu acho que muito da nossa cultura – principalmente nesses aspectos – é reflexo da deles. Esse fenômeno de eles não se importarem com a imagem que tá sendo passada deles dá pra identificar mais facilmente em programas como Wife Swap, que também passam no Brasil (e chegou a ganhar uma versão brasileira) e é um prato cheio pra análise social e antropológica. As mães vão lá, mostram como sua casa é suja e bagunçada, como criam seus filhos mal e como não são felizes em família. E em geral não ganham nada em troca.

Mais especificamente no Teen Warewolves dá pra observar como eles são primários e taxativos. Tanto a cultura de segmentação de high school (em grupos de cheer leaders, nerds, esportistas, teen warewolves, sabe-se lá) quanto a imagem que eles costumam ter dos estrangeiros me parecem estar fortemente ligadas a isso. Me refiro ao fato de, por exemplo, ser muito difícil pra eles entender a minha origem. A cada vez que eu me apresentava, dizia que era brasileira (às vezes tendo que lidar com perplexidade com o fato de eu falar português e não espanhol), tinha origem judaica, não era religiosa, era meio italiana e meio russa e ainda por cima falava inglês direito, eles ficavam muito confusos. Eles têm uma tendência a entender o mundo através de estereótipos, o que, pra começar a entender um conceito é mais do que justo, mas quando passa a ser um padrão, é preocupante.

Retomando uma coisa que eu falei sobre o postsecret, sobre o fato de a visão deles ser “viciada”, outro exemplo me veio à mente: No segundo semestre de 2008, a Laurie Anderson fez um show aqui em Porto Alegre. (Eu não acho que eu conheça o suficiente do trabalho dela pra ter uma opinião quanto ao valor artístico dela ou não. Só ouvi o primeiro cd e vi uma exposição.) Mesmo admitindo que nunca simpatizei muito, acho que ela no mínimo merece respeito enquanto artista. Mas esse show que ela fez em 2008 foi, além de musicalmente desinteressante a ponto de dar sono, era pra ser uma coisa meio de protesto contra a cultura estadunidense. Mas parecia que quem tava fazendo a crítica simplesmente não conseguia olhar pro resto do mundo.

O melhor jeito de explicar o “olhar viciado” ainda é com a mesma analogia besta que tudo que é texto filosófico usa: em um vaso colorido, o líquido vertido dentro do vaso também parece daquela cor. É como se o fato de se ser americano tornasse impossível deixar de olhar sempre pro “próprio umbigo”.

Mesmo quando eles tentam ser diferentes do padrão – o que, no momento, tá muito em alta (vide Hipsters[1], Hipsters[2]) – eles acabam caindo nessa coisa do olhar viciado. No momento o “diferente” é se vestir como os europeus se vestem/vestiam, procurar comida/produtos orgânico/sustentável, gostar de arte e música alternativa. Minha mãe usou o termo perfeito, uma vez que a gente tava conversando sobre isso: “parece que eles tão fantasiados”.

Eles não podem simplesmente não se encaixar com as cheer leaders e os jogadores de futebol americano, eles têm que se vestir e portar como tal. Eles não podem simplesmente gostar de arte e serem ambiental-friendly, eles têm que se vestir e portar como tal. Eles não podem simplesmente discordar da cultura do próprio país, eles têm que se vestir e portar como tal.

Eu sei, eu falei tanto de estereótipos e tô fazendo exatamente a mesma coisa. Eu não tô dizendo que não existem exceções. Tudo que eu tô dizendo é que a impressão que eu tive da grande maioria dos americanos com os quais eu tive contato foi essa. E espero ter expressado ela decentemente.

 

*Procurei por versões legendadas dos vídeos, mas não encontrei. Se for o caso de alguém que não fala inglês ver e ter interesse, acho que dá pra pegar a ideia, além das descriçõezinhas que eu fiz de cada um, que acho que também ajudam.

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Uma resposta para “Lá é bom, mas é uma merda. Aqui é uma merda, mas é bom.”

  1. bruna disse:

    eu gosto tanto dos teus posts. como eu nunca morei/visitei os EUA não consigo ter uma visão “boa” pra poder comentar algo decente. mas é, concordo contigo, muita coisa daqui a gente reflete de lá, vide reality shows e o caralho (por sinal vou perder a inscrição do bbb) e os segredos do post secret andam bem assustadores. por sinal, eu nem tinha entendido esse hahha não tinha lido o lado do my eldest just (…) HAHAHHA (eu e meus problemas fortes de interpretação/visão)

    ai, luluca, eu realmente acho que isso se repete muito aqui. tanto ser ecofriendly e ter que usar uma ecobag pra provar isso, quanto estereotipar pra entender. a gente consegue diferenciar um “gótico” de um “emo” de um “punk”, mas pra muita gente eles são TODOS emos/góticos ou punks. não sei se foi um exemplo bom ou se deu pra entender o que eu quis dizer… acho que no fim isso é sentimento geral na classe média de países desenvolvidos/em desenvolvimento. hipsters em todo o mundo parecem fantasiados HAHAH

    em tempo, eu curti o show da Laurie Anderson, eu gosto dela. 😛

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