Nem Grécia tão incrível nem medievo tão terrível

Essa semana, durante uma aula, um  professor meu divagou sobre como os gregos antigos eram privilegiados e como a média deles era muito superior à nossa. Tem muita gente que acredita nisso, e um dos argumentos usados pra sustentar isso é de que, como o grego antigo é uma língua muito complexa (porque tem declinações, casos, etc), só o fato de se falar grego já tornaria esses falantes intelectualmente superiores aos falantes de idiomas mais simples.

Eu não sei se concordo. Depois de estudar um pouco de grego e de ter feito um pouco de alemão, eu acho que consigo entender – nem que superficialmente – que sejam idiomas muito mais desenvolvidos que o português. Mas não acho que daí se siga necessariamente que quem quer que fale grego – ou latim ou aramaico – seja intelectualmente superior.

Além disso, mesmo que eu nunca tenha ouvido ou lido nada sobre, acho que é impossível que o grego não tivesse variações linguísticas. Assim como o latim tinha o latim vulgar, e como o português tem falantes que só dominam variações muito mais simples do que outros.

Uma das coisas que me parece dar indícios nessa direção é o fato de a democracia grega ser composta só por homens livres e maiores de idade. Mulheres, escravos e menores de idade não tinham direito a participar da vida política na Grécia antiga, e, mesmo que a democracia deles tenha sido o modelo pra nossa, ela ainda era uma oligarquia. Pensando nisso eu não consigo deixar de imaginar que poucas pessoas eram efetivamente alfabetizadas e que o que realmente se falava não é o que chegou até nós.

Meu professor seguiu divagando sobre como os gregos eram avançados e privilegiados. Inclusive citou alguém – que não conheço e não consigo me lembrar do nome – que teria dito que a humanidade poderia ter seguido sendo muito desenvolvida se não fosse o “estrago que a igreja católica fez”.

Em primeiro lugar, eu não acho que a igreja católica tenha feito um estrago tão grande assim. Apesar se eu ter voltado a me considerar agnóstica – de ateia –, mesmo não simpatizando muito com o cristianismo, eu sempre acreditei que as pessoas costumam ter visões muito primárias das coisas, e procuro não fazer o mesmo.

Assim como acho que ver a Grécia antiga como esse caldeirão cultural que alguns acreditam que foi seja uma visão primária, acho que ver a Idade Média como um “atraso” também seja. A começar pelo fato de a história não ser sempre contada por quem de fato a viveu: A maioria das interpretações e registros que nós recebemos tanto sobre a Idade Média quanto sobre a Grécia antiga – presumo eu – foram feitas pelos renascentistas, que me parecem muito parciais nesses aspectos. Tanto eles tinham repúdia pela Idade Média quanto amor pela Grécia antiga. Além do que, a visão deles, em relação a nossa, é bem mais romantizada e idealista, o que tende a gerar ainda mais parcialidade.

Os medievais, pelo menos em matéria de filosofia, produziram muita coisa muito interessante. Claro, eles às vezes (na minha humilde opinião) enfiam Deus onde não precisaria. Mas, de qualquer forma, a produção medieval não fica assim tão atrás da produção antiga.

Somado a tudo isso, eu ainda acho que seria impossível que a humanidade pudesse ter ido da Antiguidade ao Renascimento em termos de desenvolvimento cultural pelo simples fato de que as pessoas sabotam umas às outras. Eu já escrevi um pouco sobre isso antes, no caso, tall poppy syndrome. Tem uma analogia (que não sei de quem é a autoria) que explica exatamente o fenômeno sobre o qual eu falo. Na wikipedia, ela tá descrita como crab mentality. Consiste basicamente na ideia de lagostas que são postas em uma panela aberta pra serem fervidas e que poderiam facilmente escapar, mas puxam umas às outras e não deixam que uma fuja sozinha.

Com isso eu quero dizer que a humanidade tem o seu próprio tempo. Seria, sim, ótimo se alguns poucos privilegiados pudessem dar o andamento e fossem acompanhados pelo resto. É certo que a evolução cultural seria muito mais ágil. Mas nós não funcionamos assim. Além do que, o passado é o passado: De nada serve colocar a culpa do nosso suposto atraso intelectual em relação aos gregos nos medievais. Nada mudaria o fato de que, se é verdade que foi assim, então foi assim.

Anúncios
Esse post foi publicado em devaneios e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Nem Grécia tão incrível nem medievo tão terrível

  1. bruna disse:

    Então, afirmar aquela coisa de que Antiguidade foi maravilhoso, Renascimento também e Idade Média foi puro atraso é tipo… não conhecer nada de História e ignorar um período que compreendeu quase mil anos da história da humanidade (que é uma história muito pequena, diga-se de passagem) .

    O modelo de democracia que a gente tem se deve a Grécia, óbvio, pq a ideia surgiu lá, mas tb grande parte teve origem no medievo. Eu cheguei a te falar isso no msn, mas caso alguém venha a ler isso e queira saber da onde eu tirei tal insanidade: “Diferentemente do que quase sempre se pensa, a democracia ocidental é muito mais medieval que grega. Esta era produto de pequenas cidades-estado, de reduzida população no exercício da cidadania, o que permitia uma participação direta no processo político decisório. os estados nacionais contemporaneos, de área e população muito maiores, baseiam-se no esquema contratual e representativo nascido nas monarquias feudais.” A idade média, nascimento do ocidente, Hilário Franco Jr. p. 160

    E não só em termos de filosofia, mas os medievais produziram mto em vários outros aspectos, como o linguístico. E inventaram muitas muitas coisas que a gente usa sem se dar conta de que período veio, tipo: calça comprida, garfo, óculos, camisa com botão, etc. Além disso, grande parte do imaginário moderno tem origens no medievo.

    Ok, a igreja fez mta cagada, e blablá, mas é que nem tu disse: a humanidade tem seu próprio tempo. Naquele momento, o contexto pedia uma entidade que tomasse as rédeas e unificasse algo, já que a monarquia (primeramente) tava fragmentada e dps precisava de um apoio pra se consolidar. Eu não concordo com Inquisição, eu não concordo com dízimo, eu acho uó a misoginia da igreja, e etc (na real acho meio wtf? pessoas hoje acreditarem nessas coisas). Mas toda época tem seus avanços e seus retrocessos. Porra, se na Grécia colocavam crianças deficientes pra serem devoradas, se em Esparta tinha um menino maior pra machucar os menores que não treinassem direito! Tipo. Naturalmente as coisas vão evoluindo, o modo de pensar muda e, veja só, hoje em dia se usa wet legging fluo e homossexualidade é mais aceita. Negros até são vistos como gente em alguns lugares (pq né, convenhamos, racismo é o que mais tem).

    E ai, sobre isso do grego ser mto mais complexo e tal. Como eu nunca estudei a língua em si não posso afirmar nada, mas né, haha. O que sobreviveu foram relatos escritos e a norma é culta, né? Acho meio óbvio q houvessem variações, mas acho que a preocupação principal dos escritores dos relatos que chegaram até nós não era retratar a variedade da língua, daí é meio impossível fazer uma apreciação realmente boa…

    me estendi demais, mas eu te amo, ótimo post, como sempre. =) beijocas.

    perdi os últimos min do meu aniversário falando de idade média. vou lá me matar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s