Criacionismo e evolucionismo, drogas e os republicanos.

Desde quando eu consigo me lembrar como sendo capaz de algum tipo de arbítrio em relação a essas coisas – acho que desde os meus 10, 11 anos – oscilei entre agnóstica e ateia. Ninguém é muito católico na minha família católica e nem muito judeu na minha família judaica. Acho que não passa de natural que eu por consequência também nunca tenha me sentido muito ligada com religião ou espiritualidade. E, mesmo sem analisar minha família (não sei se eu vivi ou vivo numa bolha), mas conheço pouquíssimas pessoas das quais se possa dizer são realmente religiosas. Do tipo que deixa de dar credibilidade à ciência em favor da religião. Logo, concluía que isso não devia ser muito comum. E aí o meu engano: aqui nos Estados Unidos isso é extremamente comum.

Não é como se eu não soubesse da briga entre evolucionistas e criacionistas que rola por aqui. Mas eu acho que nunca tinha levado a sério ou parado pra pensar o suficiente a respeito. Ou talvez eu achasse que, sei lá, os criacionistas eram a minoria Amish/Quaker e super religiosa. Ingenuidade minha: Eles estão por tudo.

Alguns meses atrás, fui numa exposição em homenagem aos 200 anos de nascimento de Darwin e 150 da publicação da “Origem das Espécies”, na American Philosophical Society, cuja sede é perto da minha casa aqui na Philadelphia (“aqui” não, porque tô escrevendo isso dentro de um ônibus em direção a NYC, mas enfim). A exposição era intteressante, nada de muito incrível ou inovador, tinha obras, aquelas coisinhas multimídia que tem por tudo, manuscritos, etc. Mas a parte que me interessa é um mural que ficava no lado da saída, com post-its e caneta pras pessoas deixarem comentários. Fui ler, nunca esperando nada de muito bombástico. Minha surpresa: tava rolando uma enorme discussão – pasmem, por post-its – sobre o fato de Darwin estar errado, e como deus existia e como aquilo tudo era uma blasfêmia. Comecei a prestar mais atenção desde que vi isso, e, mais de uma vez, vi coisas (que pelo menos considero) surpreendentes. Até, pra fazer um parênteses, a Dr. Susan Schneider (do post anterior) chegou a comentar na palestra sobre como tinha gente da área que nem chegava a discutir o problema que ela tava abordando, porque tava muito ocupado defendendo/atacando religião.

Outro exemplo não necessariamente relacionado, mas que eu presenciei logo depois de ir a essa exibição: meu padrasto tem uma colega, a Leslie, também psiquiatra, também ligada à UPenn e com filhos da minha idade. Ela nos convidou pra um programa no qual os adultos sairiam pra jantar e os filhos ficariam na casa deles. Logo, eu, minha irmã e meu irmão mais novo nos vimos na casa de adolescentes americaninhos suburbanos de escola particular. Eles – filhos da Leslie e seus amigos que também tavam por lá –  foram super simpáticos, conversamos um pouco, meu irmão menor ficou jogando videogame, tudo certo.

Um dos filhos dela me contou que tinha sido preso na noite anterior por DUI (“driving under the influence”, dirigir sob a influência de substâncias, só pra constar). E ele tinha mais dois menores de idadeeq  – que também tavam na noite – no carro. E como ele tinha tido sorte, porque não revistaram o carro, mas ele tinha maconha lá dentro. Depois, conversando com um gordinho (amigo dos filhos) – que tinha acabado de me contar com certo orgulho de como ele só fumava maconha boa (“Only the rapper shit, ya know?”) – fui questionada em relaçã0 à minha opinião sobre o Obama. No meio da minha explicação sobre como eu não gostava da política interna dele porque ele acabou com o sistema de health care, o gordinho já meio que presumiu que eu curtia os republicanos e foi se abrindo e xingando o Obama. Eu fiquei meio zonza – não sei bem por que, sempre tive uma certa ilusão de que nunca ia conhecer um republicano de perto – e falei pra ele que não, que no resto do mundo a política não é tão bipolar assim e que pra padrões ideológicos e não econômicos, os democratas também eram bem conservador. Acho que ele também ficou desnorteado com a história, mas sei que perguntei se ele era contra casamento gay, legalização de drogas, se ia na igreja. E – PASMEM – o gordinho que tinha acabado de contar vantagem sobre como ele fumava maconha boa é CONTRA a legalização das drogas.

E é desse e de outros paradoxos que é feita essa sociedade estranha da qual eu meio que faço parte atualmente. E são esses os adolescentes que virão a ser os adultos no comando disso aqui. Sem exageros, pela quantidade de dinheiro e profissão dos pais das crias, são mesmo. Queria falar um pouco mais sobre as outras contradições daqui, mas isso vai ficar pra outro post, porque nesse exato momento tô no Brooklyn-Battery Tunnel, que é o  túnel debaixo dágua pra chegar em Manhattan. Ou seja: tô chegando.

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7 respostas para Criacionismo e evolucionismo, drogas e os republicanos.

  1. Júlia disse:

    Aqui isso acontece também. MUITO. Na parte de Porto Alegre onde eu moro tem 500 igrejas e realmente tem muita, mas MUITA gente que:
    1. Acredita no criacionismo;
    2. Não entendeu a teoria da evolução mas pressupõe que ela esteja errada;
    3. Acha que tudo levemente diferente do escopo deles é DO DEMÔNIO;
    4. Ficam genuinamente chocados com a idéia de alguém próximo deles, uma pessoa que parecia tão boa!, ser atéia ou agnóstica.
    Algumas das minhas aulas no ensino fundamental – perceba, numa escola pública de bairro, sem qualquer influência religiosa – eram iniciadas com uma oração.

  2. Valmor disse:

    Já assistiu “Religulous”?

  3. Branco disse:

    gordinho safado! hahaha

  4. bruna disse:

    quando eu era pequena minha mãe tinha uns amigos do trabalho que eram religiosos, não tenho ideia se eles eram evangélicos, bola de neve (hahaha não), católicos, enfim. mas tá, minha mamãe sempre disse que a bíblia era “mentira”, tá, ficção. daí eu tava brincando com o filho desses amigos dela e eu disse que deus e o diabo não existiam e adão e eva e blablablá, o guri disse que minha mãe era uma mentirosa e causou o maior conflito do tipo “mãe, tu mentiu pra mim?” “mas existe?” na frente da mãe uber religiosa do guri e ela com cara de cu sem saber o que fazer, mas acho que até hoje foram as únicas pessoas criacionistas (e aqueles meus vizinhos crentes da garagem, sabe?) que eu conheci na vida. não tenho muito contato, não sabia que era tão forte por aí hahaha a gente vê naqueles documentários coisas absurdas e fica pensando que não é beeeeem assim. e ai, sobre a maconha boa do guri, é compreensível, né? quer dizer, sei lá, meio que luta com aquilo achando errado, tava conversando com uma amiga minha lá da puc e ela tava me dizendo essas coisas de tu ter sido criada achando que é um troço errado e feio e usar e sentir culpa, e não sei, eu sou meio a favor de legalizar, só não acho que daria certo agora. e esse comentário tá muuiito confuso. bleh. não consegui falar o que eu queria direito. beijo lulu!

  5. bruna disse:

    não daria certo agora no brasil* ao menos, não sei como as coisas funcionam por aí na prática…

  6. ísis disse:

    Boa, Luzzia! Continua postando tuas percepções desse mundo aí.

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